Antes que o câncer me consuma



Antes que o câncer me consuma,
Quero dizer tudo o que eu não disse,
Talvez por vergonha ou quem saiba por orgulho.
Quero pedir perdão a todos que magoei,
E perdoar a todos que me magoaram.
Quero ver o por do sol no lugar aonde eu sempre ia.
Quero ver a chegada da noite,
 E as primeiras estrelas que surgem entre ela e o dia.
Quero realizar um sonho que abandonei,
Porque disseram ser impossível.
Quero fechar os olhos e pular de para-quedas,
Para saber se ainda estou realmente vivo.
Mesmo não podendo, vou sair com meus amigos,
E olhar mais uma vez os seus semblantes.
Quero poder rir de verdade, pois disso eu esqueci.
E desejar bom dia com sinceridade porque isso eu não tenho mais.
Quero voltar e reviver tudo de novo, mas não posso,
Pois as águas apagaram minhas pegadas na praia
E sem meus rastros não sei achar o caminho de volta.
Quero acordar cedo e ver o sol nascer entre a névoa...
Quero acreditar na esperança, e duvidar de um sorriso,
Quando a fome e o frio torturam uma criança.
Quero provar que o diagnóstico estava errado...
Mas se por acaso o câncer me vencer,
Pinte um quadro com minhas cinzas,
Pois só assim serei eterno.

O miserável



Quantos por tua culpa deixaram de existir
E hoje tu não cumpres aquilo pra que veio
És um estorvo sobre o mundo
Nenhum ser puro se manterá igual em teu meio

És um inescrupuloso, sujeito vagabundo
Pensas quantos seres úteis não nasceram
Depois que tu canalha já fecundo
Pensas quantas possibilidades se perderam

Para tu habitares este mundo
Hoje envergonhas tua estirpe, ó imbecil
Deixai tudo o que te deram, não és digno
Tu és tolo, egoísta e quase vil

Não mereces a maneira como te amaram
Pois pensares neste mundo estar vazio
Cuspiste sobre os seios que te amamentaram
Tu és um hipócrita, um ingrato quase vil

Se puderes, por favor, aqui não volte
Não és digno do teto que viveu
Pega as tuas tralhas a reboque

Volta para a solidão que sempre mereceu.

O lobo, a velha e a loucura.



Não sei se o que vos narro agora foi um sonho, pois mal cheguei a dormir antes de ter esta visão que vos relato. Eu seguia por uma estrada inóspita como todo jovem que se entrega a aventurar-se em qualquer caminho incerto. Logo à minha frente seguia uma senhora louca (isso mesmo, louca) como sempre de cabeça baixa e murmurando de si para si um monte de frases ininteligíveis. Ela carregava consigo uma frágil sacolinha plástica, que pelo trecho que pude entender de sua confusa canção estava contendo um pouco de pão. A música que ela cantava depois de um tempo chegou a ser irritante, pois nada dizia e o que ela apenas repetia era: “cinquenta centavos eu pago, não pagarei sessenta, pois ficará caro alimentar-se do pão”. Impaciente de tanto permanecer à sombra desta mulher enquanto ela percorria a estradinha andando sempre à minha frente, decidi que logo adiante eu tomaria a dianteira e assim me livraria da irritante canção.
O que se sucedeu daí a poucos instantes foi que um lobo surgiu bem a nosso frente, tão vil e mesquinho quanto a loba que Dante enfrentara no inferno sozinho. O animal estava louco rosnava para si e pra tudo que por ele passava, espumava e mordia a si mesmo misturando sangue à espuma enquanto se autoflagelava. Seu espumar igualava-se a um barril de cerveja quente que após agitado e aberto lança seu conteúdo fora e começa a descer pela borda em seguida como rio de lava.
A velha senhora ainda seguia à minha frente alheia aos perigos que estava exposta, ignorava tudo enquanto cantarolava ̶ até mesmo o fato de haver um estranho andando logo às suas costas. Aproximávamos-nos cada vez mais do lobo e muito mais ele sangrava e espumava. Seu olhar só tinha insanidade e fúria e não se podia saber o que o futuro nos preparava.
Pouco depois temeroso pela minha vida e cheio de piedade pela frágil senhora tomei em mãos um porrete que se achava no chão. O lobo preparou seu ataque e em seu olhar eu só distinguia sangue e fúria. Mas mesmo a senhora estando à minha frente ele avançou sobre mim, resguardando a frágil velha de mais e mais penúrias.
O lobo avançou em meu pescoço e então do leve sono despertei saudável e livre de lamúrias. Porém não consegui esquecer tão simbólica criatura. Pensei ser o sonho uma fábula que me foi dada para despertar, para ver todo mal que surge nos lugares onde não se pensa encontrar.
Tomei este breve sonho como lição, mas não sei qual moral dela tirar. Se era o lobo piedoso por desprezar a frágil velha e ao mais novo atacar ou se era um cruel assassino que me vendo armado contra si achou cauteloso ao mais forte primeiro matar.


A lição é que mesmo um lobo louco é capaz de reconhecer o perigo, ao mesmo tempo em que em defesa própria também age piedosamente ignorando aquele que não lhe oferece risco.

Sobre o autor

“Escrevo pela simples necessidade de sentir meus próprios sentimentos e ouvir meus pensamentos que vagam sem ressonância neste mundo de surdos. Eu escrevo pra tentar compreender a mim mesmo, não para responder questões às quais nunca saberei a resposta.(Roberto Codax)

Roberto Codax. Tecnologia do Blogger.