Tormento


Não sou profeta, tampouco como almejo poeta
A mim não foi dada a clarividência de saber o futuro
No entanto dentro de minha mente oscilante e inquieta
Monstrinhos terríveis corroem-me os pensamentos

Sugam minhas forças, tornam-me débil
Deixando-me o corpo cansado e a alma mais cansada ainda
Como flor que desvanece num jarro
Ou pássaro aprisionado cujo cantar lamuriante não finda

As horas do dia passam a conta gotas, enquanto a juventude se vai
As esperanças esfarelam-se entre os dedos como uma velha pétala encontrada num livro
Nas horas de solidão lancinante é que os fantasmas vem atormentar-me
Retiro a máscara que durante o dia me disfarço
E meus monstros identificam-me

E então novamente recomeça o tormento
Sento-me nesta sala silenciosa e posso ouvir o uivo dos lobos que pensei ter despistado
Aproximando-se para acabar de estraçalhar o coração que já está despedaçado


04/05/2017

No Tempo das Saúvas

Imagem: Briton Rivière



Água da chuva que caía do telhado
Na velha caneca de alumínio
Que eu bebia sem me preocupar...
Água da chuva com gosto de vida
Do tempo que eu não sabia sobre os medos,
Ainda imune às dores da existência.
Tempo em que as tristezas estavam dormentes
E viver não tinha tanto pesar
Tempo que passou, substituído por angústia e agonia
Que só me permite hoje sentir uma imensa nostalgia
Pelos dias de outrora, que se tornaram melancolia.
Hoje indiferente e vazio é quase impossível ter alegria
Os sonhos que habitavam o coração juvenil
Transformaram-se em utopia
As dores da existência são reais
E eu, destituído de sentido
Vivo apenas mais um dia.

Roberto Codax
30/04/2017

Taciturno



Sou mais uma sombra entre outros espectros
Em meio à turba dos desafortunados sinto o vazio deste limbo
Olhando os semblantes tristes que vagueiam neste deserto
Destituídas de tudo, mas ainda assim seguindo.

À espera de alguém que os liberte do sofrer perpétuo
Que foram condenados a passar sem clemência
Vagueando por este abismo abjeto
Ao findar da efêmera existência.

Sigo sozinho, imerso em mim mesmo e taciturno
Enquanto outros em grandes filas de aflitos
Lamentam em estridentes ais seu infortúnio
Mantenho-me imperturbável e meu silêncio ecoa mais que seus gritos.

Não há nobre alma que por aqui viaje, guiado por Virgílio
Neste mundo onde o tempo também não existe
Todos são desconhecidos, não há pais nem filhos

E por toda a eternidade apenas a solidão persiste.

Transitoriedade


Transitoriedade

Ó velha folha, por que lamentas tua queda inevitável,
Conhecendo o fim te manténs inconsolável,
Não percebes que teu ocaso faz parte do plano
E que resistir é cometer ledo engano?

A primavera já passou, o verão e o inverno inexorável
Ignorastes o que viu apegando-te ao impalpável
Mantivestes a esperança inútil que venceria o destino arcano
Não percebeu que como tu outras mil desvanecem todo ano.

Por teu egoísmo desprezastes a transitoriedade
O desejo de manter-se levou de ti a felicidade
E inconsolada amaldiçoa teu destino

Desconhece que a vida de verdade
É efêmera e sem durabilidade
Companheira do tempo peregrino.

Sobre o autor

“Escrevo pela simples necessidade de sentir meus próprios sentimentos e ouvir meus pensamentos que vagam sem ressonância neste mundo de surdos. Eu escrevo pra tentar compreender a mim mesmo, não para responder questões às quais nunca saberei a resposta.(Roberto Codax)

Roberto Codax. Tecnologia do Blogger.